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Ser mais simples

por A Mãe (In)Consciente, em 14.09.14

 

Li há pouco tempo que os portugueses não queriam ser mais simples. Que esta coisa de minimalismo, meditação, vida simples era apenas uma moda passageira. E a razão era que os portugueses saíram há bem pouco tempo de uma vida simples, antiquada, pobre.

 

O problema creio aqui é considerar essa vida simples com pobreza e com o retorno à natureza e às origens. É verdade que ninguém quer voltar ao Portugal dos anos 50, pobre, ditatorial, esfomeado, analfabeto, sem casas de banho e água canalizada. Aliás, até os mais radicais que vão viver para comunidades têm casas de banho (normalmente sanitas secas) e procuram dar educação aos filhos. Também é verdade que é difícil abandonarmos certas tecnologias, como o telemóvel, a internet e electrodomésticos. A questão é saber-se viver no mundo moderno, mas de outra forma. E isso é que as pessoas estão a procurar.

 

Há que tomar atenção a uma coisa: as pessoas que estão a abandonar a cidade para viver da agricultura são poucas. Não nos podemos esquecer que a propriedade agrícola está na mão de muitos poucos portugueses. A maior parte das pessoas não herda terra para ir trabalhar, nem tem dinheiro para comprar uma horta. Mas mesmo assim, e mesmo nas cidade, as pessoas procuram alugar uma horta, ou plantar em terrenos disponibilizados pelas câmaras para estes efeitos. Também da mesma forma procuram colher produtos da natureza em terrenos baldios/ livres. As margens das ribeiras e dos rios não têm donos e podemos colher as amoras. Também podemos colher a fruta que está nas árvores à beira da estrada, as azeitonas das oliveiras plantadas nas ruas. As pessoas também procuram construir com as suas próprias mãos. E quem não pode criar comida porque não tem terra, tem ainda uma infinidade de actividades a que se pode dedicar e que dão a sensação de criação: daí o interesse por licores caseiros, doces caseiros, carpintaria, costura, etc.

 

Pode-se dizer que foi a crise que levou a isto. Talvez até tenha sido. É certo que os governos desejaram muito que as pessoas fizessem poupanças (para que esse dinheiro estivesse nos bancos, ao serviço deles - mas essa é outra história). O que não esperavam era este movimento que afastava as pessoas do consumismo inconsciente. Cada vez mais as pessoas procuram consumir com consciência, e é uma tendência em toda a Europa. E isto é, certamente, um problema para uma economia que vive do dinheiro e não das pessoas. As pessoas dão mais valor ao que é manual: uma prenda feita por quem oferece pode ter só um custo de 5€ mas tem mais valor sentimental que uma pela comprada por 50€.

 

A loucura das últimas décadas acabaria por terminar, de qualquer modo. Talvez a crise tenha ajudado as pessoas a pensar de outro modo, a procurar valores perdidos. Ninguém quer voltar aos anos 50. As pessoas querem ter uma vida moderna, mas uma outra vida moderna. As pessoas querem continuar a ter tecnologias, querem continuar a estudar, mas querem parar. Já não querem levar o dia no emprego e o fim-de-semana no centro comercial. Sim, continua a se consumir, vai-se sempre consumir. Mas de outra forma.

 

O verdadeiro desafio não é para quem abandona a cidade e vai viver da agricultura. O verdadeiro desafio é o peack oil, que mais ano menos ano vai estar aí (se não estiver já). É o modo como as pessoas sem acesso a terra (citadinos, mas também os esquecidos habitantes de pequenas cidades, vilas e aldeias que nem um quintal têm) se vão preparar e lhe vão sobreviver.

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publicado às 08:32